A miopia nas crianças está a aumentar de forma preocupante. A tendência é global e poderá
afetar metade da população mundial em 2050. Filipa Teixeira, responsável pelo departamento
de
oftalmologia pediátrica e estrabismo do Hospital de Santa Maria, sublinha a importância do
diagnóstico precoce, da mudança de hábitos e do acompanhamento especializado para proteger
a saúde ocular das crianças.
A miopia nas crianças está a aumentar de forma preocupante, e Portugal acompanha esta
tendência. Nas últimas décadas, os estudos epidemiológicos mostram um crescimento da
prevalência da miopia em todo o mundo, e estima-se que, até 2050, cerca de metade da
população mundial possa ser míope.
A miopia, que se caracteriza por uma dificuldade em ver ao longe, resulta de um crescimento
excessivo do olho em comprimento. Quanto mais cedo a miopia surge, maior é a probabilidade
de progressão para graus moderados ou elevados. De acordo com os consensos internacionais,
incluindo a World Society of Paediatric Ophthalmology & Strabismus, a progressão da miopia
merece atenção especial, sobretudo quando surge cedo.
Mas porque está a miopia a aumentar?
A explicação prende-se com diversos fatores. A genética tem um papel importante: crianças
com
pais míopes têm maior probabilidade de desenvolver a condição. No entanto, a genética não se
altera em poucas décadas, o que mudou foi o estilo de vida. As crianças passam hoje muito
mais
tempo em atividades de visão ao perto, nomeadamente pela utilização excessiva de telemóveis
ou tablets, leitura prolongada e estudo intensivo.
Paralelamente, as crianças passam menos tempo ao ar livre. A evidência científica mostra que
a
exposição à luz natural tem um efeito protetor, provavelmente através de mecanismos
biológicos
na retina que regulam o crescimento ocular.
O que podemos fazer para travar a progressão da miopia?
A primeira medida deve centrar-se na mudança de estilos de vida. Recomenda-se pelo menos
duas horas diárias ao ar livre, incluindo por exemplo a prática de desporto. A exposição à
luz
natural tem um efeito protetor para a miopia e deve ser incentivada desde cedo. Em casa e na
escola, é fundamental promover bons hábitos. A leitura e a escrita devem ser feitas com
iluminação adequada e mantendo uma distância mínima de 30-40 cm. Relativamente aos
dispositivos eletrónicos, o tempo de utilização deve ser controlado e ajustado à idade da
criança.
Devem ser feitas pausas frequentes e garantir sempre uma distância adequada do ecrã e boa
iluminação do ambiente.
Atualmente existem ainda tratamentos médicos para controlar a progressão da miopia.
Destacam-se as lentes oftálmicas ou lentes de contacto com tecnologias de desfocagem
periférica, que induzem mecanismos que controlam o alongamento do olho. Adicionalmente, o
colírio de atropina em baixa dose, pode também reduzir a progressão.
Mais do que corrigir a visão, o objetivo é proteger a saúde ocular futura. A miopia elevada
está
associada a maior risco de descolamento de retina, glaucoma, catarata entre outros na idade
adulta.
A mensagem é clara: exames oftalmológicos regulares na infância permitem detetar
precocemente a miopia, avaliar o risco de progressão e iniciar estratégias adequadas. Num
contexto em que a miopia está a aumentar, a prevenção e o acompanhamento especializado por
um oftalmologista pediátrico são fundamentais para proteger a visão das próximas gerações.
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